Cemitério Maldito - Os monstros em nós

O grande John Lithgow e Jeté Laurence no cemitério maldito

A obra de Stephen King lida profundamente com perdas. O que somos e o que nos tornamos quando alguém ou alguma coisa se vai. “Cemitério Maldito”, versão 2019, de Kevin Kolsch e Dennis Widmyer é a tentativa de uma adaptação exitosa após a investida sem brilho de 1989, com uma continuação em 1992. 

Na trama, a família Creed se muda para a zona rural do Maine, nos Estados Unidos, com o objetivo de levar uma vida mais tranquila. A nova casa fica numa grande área que abriga um antigo cemitério usado para enterrar animais de estimação. Há uma conexão mística das crianças do local com o terreno. Elas fazem um ritual com máscaras para se despedir dos seus bichinhos. Essa tradição chama a atenção da filha do casal Creed. Ellie (Jeté Laurence), de 8 anos, fica curiosa com o cemitério e vai explorar o local. Ela conhece o vizinho Jud (John Lithgow) que parece conhecer muito do culto local.
A partir desse encontro, o médico Louis (Jason Clarke), pai de Ellie, e Rachel (Amy Seimetz), a mãe, convidam Jud para um jantar e a família cria uma conexão com o novo amigo solitário. Todos têm um histórico de perdas no passado ou no presente. Jud é viúvo, Louis perde um jovem paciente em um dos seus primeiros plantões no hospital da cidade, Rachel tem um trauma sobre a morte da irmã e Ellie sofrerá com uma mudança no comportamento do gatinho dela. O adorável Church vai ficar muito, muito estranho.

Só vou até aí na história porque o que vem a seguir é tudo que um bom filme de terror propõe e o elenco eficiente, com destaque para o mestre John Lithgow e a menina Jeté, dá conta nos momentos mais assustadores. Há uma falha grave como o desprezo pela história pessoal de Jud que poderia pontuar com mais riqueza suas motivações. Compensa um pouco a observação interessante sobre o modelo familiar padrão de incomunicabilidade. O casal Louis e Rachel não consegue ser sincero. Os dois vivem um sentimento de dor profunda e agem como se tudo estivesse bem. Há um discurso de proteção à família, mas ninguém consegue se abrir totalmente sobre seus medos. O casal tem ainda um bebê o que aumenta a fragilidade deles diante do horror crescente. 

Outro ponto fundamental. Além do cemitério maldito, a propriedade da família fica à beira de uma estrada por onde passam caminhões de carga gigantes que pertencem a uma grande corporação. Eles passam em alta velocidade pelo local e representam constante perigo para uma família que tem crianças brincando no quintal. O casal saiu da cidade grande “para desacelerar”. O filme levanta uma apropriada crítica à sociedade que diz buscar qualidade de vida, mas está à beira do risco de morte. Ironia do mestre Stephen King. Manter a aparência não permite que enxerguem as prioridades e as profundas fragilidades construídas a partir de perdas mal resolvidas. A falta de ética ao tentar “consertar as coisas” resulta em algo muito pior. Não há soluções simples para problemas complexos. 


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